EXPLICATUDO

EXPLICATUDO

A questão antropológica em Kant

O que é o homem?

Responder a esta questão, ainda que a perspectiva que aqui se dá seja geral e o mais específico se encontre no desenvolvimento das questões que estão inseridas nesta alínea "C" importa desde logo uma revisão quase geral sobre a filosofia de Kant.

Na verdade, para se saber o que é o homem é necessário saber-se o que Kant entende por homem, na sua multitude de facetas, como ser que é ; ainda que não se conheça a si mesmo como númeno ( como coisa em si ) , é, sem duvida um fenómeno e como tal rege-se pelas leis que regem os fenómenos ( logo, o homem é um ser natural que não tem consciência de si enquanto ser em si ).

Já tivemos também oportunidade de desenvolver a dupla situação do homem enquanto ser actuante num espaço e num tempo que chamamos de histórico: é um fenómeno que aspira a ser númeno ( ou seja, a conhecer-se em si mesmo, na sua substância, na sua verdade ); como tal coloca-se como objecto e sujeito da história ( ou seja obedece - objectiva-se - a leis que ele próprio formula - em que é sujeito delas ).

Breve, o homem, qualquer definição do homem em Kant, implica, uma conjunção entre aquilo que ele foi, aquilo que ele é e aquilo que pretende ser, num devir que, ao ser projectado por ele enquanto ser que é, acaba por se incorporar na sua própria consciência de si como meta a atingir.

Portanto o homem não é, simplesmente.

O homem está em constante mutação e embora se reconheça em Kant uma ligação de causalidade entre aquilo que ele é e aquilo que ele pretende ser, não é menos certo que existe alguma contradição própria da condição humana que é a de projectar-se para um futuro determinado sem ter a certeza de que esse futuro determinado será, por um lado alcançado, e que ele esteja, pela sua prática, no caminho correcto para o atingir tal como o projecta.

A limitação humana, a sua finitude, está pois presente em Kant em várias das suas vertentes; no conhecer, por exemplo, o homem apenas conhece aquilo que é experimentável, base certa para a aquisição de um conhecimento seguro. Logo, o que não é experimentável ( e que constitui uma lista infinitamente grande ) não é cognoscível.

Assim, o homem sendo um ser que conhece, não se conhece a si mesmo como ser e substância, o que coloca desde logo todo um conjunto de interrogações sobre a realidade daquilo que ele conhece: conhecerá bem?! Não estará o "conhecer bem, ou de forma perfeita e segura" dependente da sua substância e do seu próprio conhecimento enquanto númeno, enquanto coisa em si ?!

Ou seja, não será o seu conhecimento tal como o navio que vimos em Galileu, um conhecimento daquilo que lhe é imediato sem ter a percepção exacta daquilo que lhe é mediato? E não será esse seu conhecimento imperfeito resultado de todos os relativismos a que está sujeito, quer enquanto ser natural ( de natureza) quer enquanto ser numenal ?!

Kant é considerado um filósofo humilde ( não no sentido de pobreza mas porque reconhece humildemente as suas limitações enquanto ser humano ). O homem de Kant não pode ser diferente, ou pelo menos não pode ser muito diferente daquilo que Kant foi ( e é, através dos seus escritos).

A sua superação da condição humana como mero objecto de um jogo de leis "obscuras" da natureza através da construção de leis dos homens, em que eles mesmos sejam legisladores e legislados é um ponto importante para reconhecer melhor o homem que não se conforma com a sua situação objectiva, de mero fenómeno, mero efeito causal entre determinações que o ultrapassam.

Por isso Kant é reconhecido como o filósofo da liberdade, não uma liberdade qualquer, uma liberdade que implique a limitação de outras liberdades na medida em que isso implicaria a destruição da espécie humana, única forma de o homem, por essa mediação, atingir a eternidade.

O papel do homem, esboçado de uma forma mais consequente no seu sintetismo à priori enquanto método de conhecimento superador da mera condição de fenómeno ou do fenómeno em si e o imperativo categórico onde é demonstrada a possibilidade de ser superada a mera vontade desordenada do homem na sua caminhada em direcção ao Absoluto ou à Infinidade são marcos importantes para o conhecimento daquilo que é o homem numa transposição clara com aquilo que ele deve ser.

Fica claro na filosofia de Kant que o homem, ao desejar de uma certa forma ou ao desejar uma coisa a tem presente como ideia, ou seja, como coisa pensada, ainda que muitas vezes não a conheça porque tais limitações são próprias da sua condição humana.

Esta separação, contudo, entre aquilo que se conhece e aquilo que se pode vir a conhecer, mantendo-se como condição dual e ideal, implica a sua superação como síntese futura. Em relação a Hegel, colocado num outro extremo da filosofia, ou seja, partido de premissas bem diferentes, ainda que na sua grande parte retiradas das interrogações que Kant deixou, este último é sem dúvida um filósofo que parece mais probo, mas é, simultaneamente, apesar do seu idealismo, bastante mais realista ou mais conformado com a realidade humana.

O homem, em Kant, não é, pois muito diferente daquilo que ele mesmo foi como filósofo ou da forma como ele o concebeu em toda a sua filosofia.

Um ser contraditório ( socialmente insociável diz-nos na sua história ) a caminho de uma unificação como totalidade sem que contudo Kant tenha a pretensão ( porque tem a modéstia) de lhe indicar caminhos certeiros ou considerados certeiros em termos fundamentais ou de conteúdo que o levem, sem a sua intervenção enquanto homens sujeitos e objectos da história, a atingir um fim que esclarece formalmente ser o fim em si mesmo, ou seja, aquele que não se pode, pelo menos para já, conhecer porque é númeno, ou seja, porque está para além do presente e não se pode definir desde já.

Se a questão do homem está no coração do Kantismo e define a tarefa do filósofo, não é na perspectiva de um saber a constituir ( teoria ). A antropologia kantiana é uma antropologia prática ( da razão prática).

O Kantismo é um esforço para fundar, em todos os domínios, a autonomia do homem e, por uma crítica radical das filosofias anteriores, por uma elucidação sem precedentes, traz à luz do dia os poderes, os deveres e as esperanças deste ser racional que é o homem.

Porque aí reside o paradoxo desta nova revolução Coperniciana: de um lado o entendimento é reconhecido como fundamento da objectividade científica, o agente moral põe a lei à qual ele ( entendimento) obedece e a razão é a fonte do sentido que é preciso dar à natureza e à história.

Mas por outro lado, a filosofia de Kant permanece uma filosofia do homem e da condição humana. O acto constituinte do espírito não se estende ao infinito. A noção de poder está ligada à de limite e o homem kantiano conhece a sua finitude.

O primeiro acusado trazido perante o tribunal da razão é a própria razão, condenada nas suas pretensões de constituir uma ciência do ser; o espírito humano deve reconhecer que não é capaz de ir nem ao ser nem a Deus ( pelo menos imediatamente), e esta separação ontológica traz ao homem uma obscuridade irremediável sobre a sua essência e o seu destino: vê-se através do espelho dos fenómenos e lê, como num enigma, as intenções da natureza ( que mais tarde passam a ser coincidentes com as suas, ou pelo menos conciliáveis, quando se tornar ele mesmo legislador e legislado).



22/04/2008
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