EXPLICATUDO

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CIORAN SEM REDE

CIORAN SEM REDE


Resolvemos dar este título a este trabalho devido ao facto de estarmos a utilizar, em exclusivo, uma leitura nossa de Cioran sem que nos apoiemos em quaisquer elementos de consulta exteriores à nossa própria forma de ver e analisar, ou seja, à nossa própria formação cultural.


Nada de estranho…mas preferimos fazer assim do que estar-nos a servir de estudos "extremamente complexos" sobre os quais jogámos um apressado olho não o tendo lá deixado ficar (o olho). Só como exemplo, o autor, no qual desperdiçámos o nosso tempo (e parte da nossa infinita olhadela) acredita (piamente cremos) que o tempo contado e considerado desperdiçado por Cioran no nosso primeiro comentário é o tempo do lírico (que aliás ele refere nos seus estudos / aforismas como sendo realmente um desperdício).


Mas. Entremos no nosso cerne da questão:


Citações da "Inconveniência de se nascer" ( Cioran, Emile )

Três horas da manhã. Tenho consciência deste segundo e depois de um outro, faço o balanço de cada minuto.

Porquê tudo isto? - Porque eu nasci.

É deste tipo especial de insónias que deriva a colocação em causa do nascimento.


Comentário:


O facto de se contarem os segundos e os minutos tem um significado especial neste caso citado em Cioran. Fundamentalmente trata-se de tempo perdido, que se perde em si mesmo na sua própria contagem como tempo. Derivar daí a grande questão sobre a utilidade do nascimento coloca-nos perante o problema subjacente que é o facto de, após se nascer, ter de se morrer e, de alguma forma, o tempo inútil ou inutilizado ser, por si, já, uma forma de não viver e logo, estando próximo da morte, pelo menos por analogia.

O nosso poeta António Nobre (e sem ir buscar mais referências, por ora) explorou este tema da afinidade do sono com a morte, e a afinidade entre o estado de vigília, o estado de desperto, e o estado do sono tem sido discutido desde a antiguidade na sua relação com a morte a vida. Mas não é este o nosso objectivo, por ora, discutir esta questão mais profundamente.


Fiquemo-nos, para já, com a Ladainha de António Nobre:

 


Teu coração dentro do meu descansa,

Teu coração, desde que lá entrou:

E tem tão bom dormir esta criança,

Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

 


Dorme, menino! Dorme, dorme, dorme!

O que te importa o que no Mundo vai?

Ao acordares desse sono enorme

Tu julgarás que se passou num ai.

 


Dorme, criança! Dorme, sossegada,

Teus sonos brancos ainda por abrir:

Depois a Morte não te custa nada,

Porque a ela habituaste-te a dormir…

 


Dorme, meu Anjo! (a Noite é tão comprida!)

Que doces sonhos tu não hás-de ter!

Depois, com o hábito de os ter na Vida

Continuarás depois de falecer…

 


Dorme, meu filho! Cheio de sossego,

Esquece-te de tudo e até de mim.

Depois…de olhos fechados, és um cego,

Tu nada vês, meu filho! E antes assim.

 


Dorme os teus sonhos, dorme e não mos digas,

Dorme, filhinho! Dorme, dorme "ó - ó"…

Dorme, minha alma canta-te cantigas,

Que ela é velhinha como a tua Avó!

 


Nenhuma ama tem um pequenino

Tão bom, tão meigo; que feliz eu sou!

E tem tão bom dormir esse menino…

Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

 


Porto, 1894.


Ora, um bom dormir foi aquilo que Cioran não teve. Por razões patológicas tinha insónias crónicas, tendo de extenuar-se nomeadamente através de circuitos em bicicleta para poder, enfim, dormir. Nada de mais oposto, pois…mas é justo perguntarmo-nos se Cioran não dormiria o sono do Menino de António Nobre acordado.


Aliás, e no que se refere às insónias, temos em Cioran como temos noutros campos do mesmo filósofo, um enrolar das coisas, que valem não pelo seu valor mas porque têm de ter algum valor para si mesmas. Ter-se insónias ou não se ter não é de menosprezar, pois. Dormir bem, como em António Nobre mereceria igual valor reflectivo caso tivesse lugar em Cioran. (Na nossa opinião, é claro).


É uma constante em Cioran: as coisas não valem, ou seja, não têm existência, porque a mereçam, no sentido mais absoluto do termo, mas sim porque o facto de existirem lhes dará, de uma forma que se pode classificar como de coerência, um valor obrigatório pelo facto de existirem. É assim como que um género de "ordenado mínimo" da existência...ela tem o seu lugar não porque seja existência no seu sentido mais profundo mas porque teríamos dificuldade em entender que ela a não tivesse.


Esse é um dos problemas essenciais de Cioran: a vida (existência) deixa de ter significado por si e para si para se significar apenas e só como existência abstracta que apenas se define porque não se sabe exactamente o que fazer com ela como indefinida.


Fim do primeiro comentário


"Desde (ou já agora, uma vez que) que estou no mundo" – este desde parece-me carregado de uma significação tão assustadora que se torna insustentável.


Comentário:


O problema do desde (ou do agora, o do uma vez que – figurado) quer dizer que se integra o ser no tempo e se coloca esse ser temporal no mundo. O problema não é tão simples como estas palavras escorreitas podem dar a entender.


Integrar o ser no tempo implica que se integra o ser no nosso tempo, ou seja, na nossa forma de contagem do tempo e não no tempo absoluto, aquele que existe para além de nós e apesar de nós. Não deixa de estar integrado, o ser, neste tempo absoluto, uma vez que a ele não pode fugir…mas a perspectiva dada por Cioran é a que nos coloca no estudo do ser finito pela nossa ideia de tempo finito. O finito não pode conter o infinito, como é lógico…


Sabido e esclarecido isto passemos à fase seguinte. Porque é que esse "desde" é assim tão assustador e insustentável?! Dada, a meu ver, a sua precariedade. Um ser no tempo, que conta cada segundo e cada minuto como vimos na outra citação como sendo não -minutos de vida ou uma aproximação do fim, está, definitivamente, em contagem decrescente desde que nasce, mas, mais importante que isso, é que tem uma consciência constante dessa contagem decrescente e mais, que se prefigura como ser permanentemente sujeito a uma espada de Demócles.


É a confrontação com essa realidade, com essa fatalidade, que se tem dificuldade em admitir (que aliás ele admite em excesso) que resulta na vida como uma não vida e como um aproximar da morte, sendo que esta morte não é um final de vida mas sim uma continuação de si mesma, como morte.


Para Cioran o homem não vive (não existe) no sentido que ele entenderia que seria o viver e que se compreende como sendo um viver sem limites temporais, uma imortalidade, ou mesmo um viver simples sem tempo definido para o seu limite. O ideal de Cioran, no que se refere a este aspecto, seria não ter consciência da necessidade da morte. Por outras palavras, preferia desconhecer (se nos é permitido o termo) tal como os outros entes não humanos a sua finitude.


Não tendo esses atributos (a imortalidade ou o desconhecimento da finitude) a existência torna-se incompreensível e inaceitável porque não se pode, segundo Cioran, entender que a existência esteja desde logo programada para deixar de o ser, ou mesmo que o seja, programada, que seja dado ao homem (e a ele, Cioran) esse conhecimento. Em certo sentido pode entender-se que Cioran entende ser este um preço demasiado elevado para a possessão da consciência.


Para ele isso não é existir...uma "coisa" que traz em si mesma a sua própria destruição é incompreensível. O percurso da existência, o almejado percurso, para Cioran, só pode ser pois um percurso infinito no tempo infinito.

 



10/12/2007
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