EXPLICATUDO

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FLORBELA E O DONJUANISMO

FLORBELA E O DONJUANISMO

 

Assiste-se ao nascer e ao desenvolver do sentimento e à interiorização do absurdo descrito mais tarde por Camus no seu Mito de Sísifo, por exemplo:

"O homem absurdo não é servo de nenhum código moral; é, antes, um consciente imitador dos protótipos vivos da sua atitude: D. Juan, o comediante e o conquistador. O primeiro põe em acto «uma ética da quantidade, ao contrário do santo que tende para a qualidade» (p. 92). Para o segundo, a arte consiste em «fingir absolutamente, entrar o mais profundamente possível em vidas que não são suas» (p. 101). O terceiro, o conquistador, é aquele que se excede por ter consciência da grandeza do espírito humano, «mergulhando no mais ardente da alma das revoluções» (p. 110). Mas a «mais absurda das personagens (...) é o criador» (p. 114), e «a alegria absurda por excelência é a criação» (p. 118), ainda que esta seja para nada."

Voltaremos a estes termos "criação e nada" tão presentes em Florbela, e igualmente faremos realçar a personagem de D. Juan cujo seguidismo é sugerido existir em Florbela por vários autores. Contudo seria bom desde já deixar claro que a ideia que se tem correntemente, de D. Juan e do Donjuanismo (mesmo contando com as reformulações que lhe foram trazidas quer pela música quer pelas reposições temáticas ao longo de mais de duzentos anos) não se pode resumir a alguns aspectos freudianos (que são bastante interessantes, nalguns casos, diga-se de passagem, e até muito ridículos noutros casos, diga-se também).

D. Juan (aquele D. Juan que se foi perpetuando) não é mais que uma imagem ajustada de Zeus já na sua fase decadente, de Deus da ira (contra os metafóricos Titãs) a Deus do perdão e fusão com o mundo dos homens em que a sua "vida" era já motivo de risota superadora dos gregos dadas as suas aventuras amorosas e a eterna perseguição da sua mulher e irmã Hera.

Há também, em D. Juan, um pouco da inconstância e falha de virtudes de um Paris indirectamente originador da guerra de Tróia. Aliás, uma das interpretações freudianas que vimos da personagem de D. Juan detém-se precisamente neste tipo de característica; alguma inconsciência ou falta de capacidade de valorização entre o Bem e Mal acrescida de uma sumária equiparação a um Cupido que se "recusa a crescer" ( "complexo" de Peter Pan ) transformado no próprio Eros com o qual o "burlador" acaba também por ter afinidades nesta sua característica dado que Eros depois de ter conseguido convencer a Terra a copular com o Céu se apropria dela, fazendo-a sua não no sentido físico mas sim no sentido da dominância.

Mas Zeus, uma personagem omnipresente desde os princípios da humanidade é um pouco ou muito o homem ele mesmo vivendo as contradições que são próprias do relacionamento entre os sexos. As suas fugas ao "obstáculo" Hera (sua mulher) não serão mais do que entraves psíquicos postos pela lenda de forma a dificultar a acção de Zeus (neste caso) e valorizar o que não seria valorizável: como Senhor dos Deuses teria seguramente mais poderes que as mortais ou semi-deusas ou deusas que seduzia o que tornaria cada "conquista" um aborrecimento mítico.

"(…)Para Homero, Zeus era imaginado de duas maneiras diferentes. É representado como o deus da justiça e da misericórdia, o protector dos fracos e o punidor do mau. Como marido de sua irmã Hera, ele é o pai de Ares, o deus da guerra; Hebe, a deusa da juventude; Hefaísto, o deus do fogo; e Ilíthia, deusa do parto.(…)"

Nesta primeira parte da visão de Homero sobre Zeus a abordagem é Moral e Ética, em certo sentido límpida e virtuosa. Daí que tenhamos alguma dificuldade em entender a sua outra face, a face licenciosa e amoral. Mas desde quase sempre ou mesmo sempre o mundo tem sido "regulado" por dualidades e oposições e aceita-se, também quase desde sempre, que uma prefiguração contraditória acaba por servir de termo antagonicamente comparativo e facultador da opção para a escolha de um dos termos, fomentando assim as réstias do livre arbítrio necessário ao equilíbrio humano.

Ainda Homero "(…)Ao mesmo tempo, Zeus é descrito como um deus que se apaixona por uma mulher a cada instante e usando de todos os artifícios para esconder sua infidelidade da esposa. Os relatos de suas travessuras eram numerosos na mitologia antiga, e muitos de seus filhos eram o produto de seus casos de amor tanto com deusas quanto com mulheres mortais.

Acredita-se que, com o desenvolvimento de um sentimento de ética na vida grega, a ideia de um deus lascivo, algumas vezes um ridículo deus – pai tornava-se desagradável, e então as lendas posteriores tenderam a apresentar Zeus com uma luz mais gloriosa. Seus muitos casos com mortais às vezes são explicados como o desejo dos primeiros gregos de traçar sua linhagem até ao pai dos deuses." ( Nota de D.T.: O que não deixa de ser um "sacrilégio" tornando pior a emenda que o soneto, como se costuma dizer).

Evidentemente que a personagem construída por Tirso de Molina sob o sugestivo nome de "El burlador" ( Em português poderá ser "O Enganador", termo que foi muito utilizado numa outra perspectiva relacionada que é a da sedução de virgens com promessas normalmente de casamento) é uma personagem extremamente interessante, quer na sua época quer antes e mesmo depois.

José Zorrilla reformulou a personagem no Sec.XX, mas há mais o "Don Giovanni" de Mozart, um poema sinfónico de Richard Strauss, o Don Juan de Molière ou o de Lord Byron e mesmo no cinema a personagem tem sido explorada (D. Juan de Marco).

D. Juan personifica ou simboliza os desejos não propriamente de libertinagem mas sim os desejos de manipulação e poder de alguns seres humanos sobre outros, nesta forma de Molina um pouco adaptada a uma época de Reforma religiosa propiciando ao mesmo tempo uma fuga a esse ambiente cerrado e ameaçadoramente ascético.

Á claro que o burlador acaba por não conseguir burlar Deus e a moral então vigente e acaba por arder nos fogos do Inferno ( no caso de Molina ) ou por arrepender-se dos seus pecados, no caso de Zorrilla.

Todos conhecem a história em linhas gerais (o título original de Tirso de Molina é "O burlador e o convidado de pedra"): D. Juan faz-se passar por outras pessoas de forma a ter relações com as suas amantes e goza do privilégio oratório (e de estatuto) que o leva a obter mais uma ou duas conquistas, não interessa muito. A ideia que fica neste plano é que se trata de uma personagem amoral que utiliza subterfúgios para obter (não obtendo no sentido da continuidade) os favores de algumas damas. Aquilo que em Zeus resulta num filho ou filha resulta em D. Juan numa relação igualmente esporádica cujas consequências se não vêm a conhecer.

O fecho moral (ou o castigo após os crimes que incluem a morte do pai de uma donzela seduzida) é construído pelo próprio D. Juan, que, na boa óptica envolvente e irreversível que virá a ser uma das pedras de toque de Camus, acaba por convidar a estátua do indivíduo que matou para jantar em sua casa. A estátua comparece e ele (D. Juan) na retribuição da gentileza acaba por ir igualmente jantar ao túmulo do falecido estatuado vindo depois a ser puxado por este para as chamas do Inferno. Em Zorilla D. Juan regenera-se, e provavelmente terá entrado para algum convento sendo tradição fazer a representação da peça de Zorilla ( D. Juan Tenório ) no dia de Todos os Santos ( 1º de Novembro).

Kierkegaard referiu-se também a D. Juan como um sedutor e é essa a imagem que tem ficado ao longo dos tempos embora a personagem seja bem mais complexa do que o resíduo que dela se tem feito. Assim, descreve-se hoje o donjuanismo como uma personalidade que necessita seduzir, obsessivamente ou de forma continuada de maneira a não perder, pela não – conquista, uma parte do seu ser com este conteúdo já interiorizado e identificado.

Quanto mais dura é a conquista mais sobe a fasquia e o desejo de a completar, sendo que esse completamento é meramente conjuntural e não estrutural. Tudo funciona como se o processo de conquista e a realização da mesma seja organicamente uma acumulação de adrenalina que após se liberta para vir a renascer numa outra situação igualmente ou mais dura ainda.

Dizem os psicanalistas (e nós também) que as pessoas com esse traço não conseguem ficar apegados a uma pessoa determinada, partindo logo em busca de novas conquistas. As pessoas com essas características são os anarquistas do amor (Sapetti), tornando válidos quaisquer meios para conquistar, entretanto, os sentimentos da outra pessoa não são levados em conta. Aliás, Foucault enfatiza essa questão ao dizer que Don Juan destrói as duas grandes regras de ouro da civilização ocidental; a lei da aliança (casamento) e a lei do desejo fiel (ou fidelidade).

O problema que se coloca é antes um problema ético, de razão prática: não sendo esta finalista, ou sendo uma ética de meios, como é o caso, sem valores mandatórios transcendentes ou apriorísticos que a suportem, é evidente que o campo do livre arbítrio estando colocado e sendo decidido na esfera do julgador em causa própria acabam invariavelmente por proporcionar situações destas em que o envolvimento moral acaba por moldar-se ao interesse ou à personalidade do indivíduo.

Ora o donjuanismo feminino que é assacado a Florbela Espanca tem a ver com estes aspectos que temos vindo a referir traduzidos no feminino, sem que tal implique qualquer masculinização da personagem de Florbela embora se fale dela também aplicando o termo hermafroditismo. Não afastamos a hipótese de Florbela, por força das circunstâncias sociais envolventes, ter criado para si mesma um conjunto de princípios (ou condições apriorísticas) que tornassem o confronto constante com a ordem social e psicológica vigente menos agressivo para si mesma.

Um escudo, ao fim e ao cabo, que a defendesse naquele limiar obscuro existente entre a sua necessidade de afirmação como mulher e o paradigma da afirmação masculina ou masculinizada. Fala-se, algures na sua biografia, que Florbela teria tomado como modelo, ou pelo menos teria tolerado como modelo identificativo da sua atitude neste campo o seu pai e as suas constantes infidelidades. Numa referência do seu diário que não sabemos exactamente a que se refere pode no entanto, e apesar de tudo, ler-se a seguinte imagem contemplativa:

24 de Novembro de 1930- Diário

" Há uma serenidade consciente na linha firme daquele perfil. As mãos têm raça e nobreza; o sorriso, ironia e bondade; os olhos…não se examinam: deslumbram.

Deve ter vivido dez vidas numa só vida. Há sonhos mortos, como violetas esmagadas, na pele fina e macerada das pálpebras.

Que rastos deixarão na minha vida aqueles passos, silenciosos e seguros, que sabem o caminho, todos os caminhos da terra?"

A imagem tanto pode ser masculina como feminina, mas realça-se a ideia da força e da serenidade, ou seja da capacidade quase intelectualizada de adaptação a " todos os caminhos da terra" pelo que pendemos mais para que esta seja uma imagem de seu pai. No entanto o pai de Florbela não foi propriamente um exemplo de constância ao longo da sua vida, pelo menos por aquilo que vamos sabendo. E para mais Florbela escreve (ou data) este pensamento de um mês antes da sua morte efectiva e no mesmo mês em que tinha feito uma tentativa de suicídio.

Talvez fosse simplesmente isso que Florbela invejasse no pai ou na imagem que tinha dele, aquela que guardava ou que nos dão a entender que ela guardava. Como homem e como princípio identificador é preciso um elevado grau de tolerância para invejar um homem que a fez nascer nas condições em que ela nasceu, que, em rigor é parte integrante do pecado do qual se não consegue livrar, que se divorcia (embora esta questão seja…questionável dado que o hábito de casamento era pela Igreja, na qual estava vedado o divórcio) da sua mulher quando ela está já doente e poucos anos antes dela falecer, breve, não se vislumbra facilmente no pai de Florbela qualquer capacidade de inspirar aquela confiança e aquela estabilidade emocional necessária. Mas este, como outros assuntos, serão objecto de alongamento posterior.

  



20/11/2007
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