EXPLICATUDO

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LINGUAGEM E CONCEITO DE LINGUAGEM

LINGUAGEM E CONCEITO DE LINGUAGEM

 

Dentro da linguagem exteriorizada, ou tendente à exteriorização, falar escrito e falar "falado" não sendo exactamente a mesma coisa integram-se ambos no processo comunicativo, mesmo que num caso e noutro estas formas de expressão do pensamento representem mais ou menos fielmente aquilo que é o objecto do pensamento. De certa forma, e em termos de análise, concede-se o estatuto de linguagem a formulações simbólicas, independentemente do grau de representatividade que as mesmas possam conter em si.

Poderia ser considerado pelo menos estranho que, para alguns casos, a obtenção do estatuto de linguagem se consiga apenas pela via da representatividade da mesma, enquanto que noutros casos, como este que referimos atrás, tal facto é indiferente.

Para que tal tenha lugar em muito contribui um outro facto que é aquele que refere a posição da pessoa que avalia; ou seja, a representatividade ( ou um determinado grau de representatividade ) é exigida na comunicação exteriorizada e para esse efeito conta com a subjectividade quer do emissor quer do receptor ou receptores que, eles mesmos, avaliam da qualidade do transmitido. Ora, essa qualidade do transmitido, desde que atinja um ponto considerado satisfatório em termos de entendimento entre emissor e receptor atinge o estatuto de linguagem.

O mesmo já não acontece na linguagem interiorizada; sendo o emissor e o receptor uma e a mesma pessoa e dependendo a atribuição do termo linguagem a uma conjunção de subjectividade, lógico será afirmar-se que o sujeito tem uma melhor percepção da verdade ou certeza do transmitido e da sua conformidade com o recebido, e logo, é mais exigente quanto à qualidade da mensagem, embora este termo " melhor " deva ser entendido não no sentido geral mas no sentido da sua particularidade.

No caso contrário, embora a conjunção de subjectividades seja mais difícil, pelo menos aparentemente, uma vez que se trata de indivíduos e individualidades diferentes, existe uma apropriação do sentido da mensagem da parte do receptor que a molda àquilo que de facto entende ter recebido e existe uma submissão do emissor à interpretação que é feita pelo receptor ao mesmo tempo que a contrária também é verdadeira.

Este facto, derivando de um processo psicológico complexo, é, de certa forma um sintoma dos cuidados que rodeiam o processo comunicativo e que faz com que este obtenha, em certos casos, sentidos ( ou significados ) que dependem da pessoa que os recebe ou os emite, ou seja, que a linguagem esteja dependente do estatuto cultural / social ( para só referirmos estes dois aspectos ) do emissor e do receptor. Encontram-se exemplos frequentes deste processo psicológico que tem a sua conotação histórico / social e a este assunto voltaremos em altura oportuna .

Conforme já vimos atrás, a exigência de conformidade entre o emitido e o recebido é maior quando se trata do mesmo indivíduo, sendo claro que o processo psicológico interno, sendo, pelo menos logicamente, mais linear, ou menos conturbado  - salvo as excepções que iremos referindo - se processa também ao mesmo nível histórico - social. 

Por isso, e desde logo façamos esta destrinça: se aquilo que se pensa se pode falar ( escrito, verbalizado, gestualizado, etc. ) é , inicialmente, objecto do pensamento -  salvo algumas excepções que referiremos à frente - , não será menos verdade que a fidelidade do comunicado ao pensado depende em grande parte de todo um conjunto de factores que estão relacionados com os instrumentos da comunicação e com outros factores decorrentes das necessidades do processo comunicativo, aplicando-se este princípio tanto à linguagem exteriorizada como à linguagem interiorizada.

Contudo, e conforme acentuámos atrás, o grau de exigência à fidelidade ao transmitido e ao recebido é maior partindo do indivíduo para o próprio indivíduo do que do indivíduo para um outro indivíduo ( embora o esforço aplicado num caso e noutro possa ser quantitativa e qualitativamente diferente ) . 

Seria demasiado fácil - e bastante cómodo para este trabalho - dividir o interlocutor e comunicadores individuais em duas entidades distintas, consoante a sua posição no desenrolar do discurso ( entendendo que haverá discurso ), mas não acreditamos que tal ideia possa vir a ter a sua aplicação indiscriminada ao longo deste trabalho.

Conforme reconheceremos facilmente quando se disse atrás que falar de uma forma ou de outra, seria, " em princípio " o mesmo, está-se a utilizar este termo na sua mais larga acepção. Na verdade, " falar " de uma ou de outra forma implica, conforme já dissemos, não só a submissão e a limitação aos signos desse jogo de "palavras" como também uma submissão e uma limitação aos próprios instrumentos da palavra, ou seja, às cartas ( ou dados ) com que se joga o jogo ( e nestas cartas e nestes dados tomamos a liberdade de incluir o estatuto social dos comunicantes ).

E se o fazemos é não só porque se trata de um factor interveniente no processo comunicativo mas porque se trata de um factor extremamente importante cuja flexibilidade varia de pessoa para pessoa ( vistas individualmente ) de classe social para classe social ( vistas colectivamente ) e de tempo histórico para tempo histórico ( vistos temporalmente ).

Estes três elementos; individualidade, colectividade e temporalidade têm-se interligado entre si ao longo dos tempos e agindo em conjunto ou separadamente têm exercido a sua influência positiva e / ou negativa no processo linguístico. Longe da realidade estaríamos se não admitíssemos a influência recíproca que é exercida entre a forma e o conteúdo - em qualquer contexto - e nomeadamente neste . Ao utilizarmos o termo " jogo" para definir um conjunto de regras comummente aceites e que perfaçam linguagem pensamos não estar a exagerar ou a tentar dar à linguagem um estatuto de inferioridade qualquer. O termo " jogo simbólico " é utilizado por conceituados autores.

Na verdade, embora a conotação normalmente aplicada a este termo " jogo " tenha uma significação de superficialidade, será interessante descobrir-se se o que nasceu primeiro foi o jogo ou a palavra. Conforme teremos oportunidade de ver à frente foi o jogo que nasceu primeiro, embora sem a palavra o mesmo não tivesse qualquer utilização ou possibilidade de intervenção no campo social e mesmo no seu próprio campo individual, enquanto formulação simbólica.

Por outras palavras, o jogo simbólico - independente da comunicação exteriorizada imediata - e dependente da comparação simbólica no caso da comunicação interiorizada, apenas se desenvolve dentro dele e para além dele porque tem por fito a comunicação e a linguagem como forma estruturada e sistematizada do conhecer.

Teremos ainda de reconhecer que , diferentes sistemas de expressão implicando o manuseamento de conteúdos e de capacidades e qualidades de linguagem diferentes, implicam simultaneamente uma relação com a realidade quer dos conteúdos e das formas quer ainda uma relação estreita com as capacidades e qualidades de manuseamento desses conteúdos e dessas formas.

Num sentido geral poderemos admitir que uma linguagem é, na sua formulação técnica e teórica, independente da capacidade e da qualidade da utilização que a ela é dada pelo indivíduo visto no seu plano singular. Entramos no campo generalizador do conceito de linguagem, que, como todas as abstracções nivela por aquilo que se considera comum, neste caso num plano científico.

 



23/11/2007
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