EXPLICATUDO

EXPLICATUDO

LINGUAGEM E GESTUALIDADE

Falar de linguagem gestual é, antes de mais, falar de um tipo de linguagem cujos princípios básicos - em termos de integração desses componentes num campo mais vasto que é a relação social ou as necessidades decorrentes da relação social - não diferem substancialmente de outras formas de linguagem.

Entendendo que a linguagem é - para além de ser expressão interna do pensamento - uma forma de comunicação de processos cognitivos tendo em vista a exteriorização dos mesmos, falar por gestos ou falar por uma outra forma qualquer será, em princípio, o mesmo. Conforme reconheceremos facilmente quando se diz " em princípio " está-se a utilizar este termo na sua mais larga acepção.

Na verdade, " falar " de uma outra forma qualquer implica a submissão aos signos desse jogo de "palavras" e longe da realidade estaríamos se não admitíssemos a influência recíproca que é exercida entre a forma e o conteúdo em qualquer contexto e nomeadamente neste.

Teremos ainda de reconhecer que, diferentes sistemas de expressão implicando o manuseamento de conteúdos e de capacidades de linguagem diferentes, implicam simultaneamente uma relação com a realidade quer dos conteúdos e das formas quer ainda uma relação estreita com a capacidade de manuseamento desses conteúdos e dessas formas.

Difícil seria admitir a geração espontânea de um determinado tipo de linguagem - sobretudo se se entender que uma linguagem, ao nível a que a tratamos neste momento - é uma técnica ( techné ) e, logo, uma formulação aplicada ou a aplicar.

A linguagem, entendida no campo exclusivamente teórico ou abstracto, serve de suporte consciente e inconsciente a este trabalho e irá sendo desenvolvida no texto, quer de uma forma directa, quer naquilo a que se costuma chamar de entrelinhas ( neste caso do pensamento subjacente ).

Ora, estes conteúdos e estas capacidades de expressão de uma linguagem não têm a ver exclusivamente com as potencialidades internas de cada uma das determinadas linguagens existentes vistas no seu plano imediato. Um sistema de linguagem - e dentro de cada sistema o processo repete-se numa outra escala - está dependente de todo um conjunto de factores que interagem historicamente e cuja diversidade é tão ampla que impossível seria aqui abarcar uma parte razoável de todas as suas componentes constitutivas.

Contudo poderemos sempre referir como sendo um factor determinante para a constituição de um sistema de linguagem o grau comparativo de capacidades dos utilizadores / autores da referida linguagem. E, no plano da linguagem gestual, este aspecto é, e tornou-se desde há séculos, um factor de extrema importância.

Assim, e no caso deste tipo de linguagem gestual, de aplicação mais corrente em comunidades de surdos ou de pessoas dotadas de uma incapacidade vocal, tem de se ter em conta que a capacidade sensorial ( no caso dos surdos ) e que a capacidade de expressão ( nos surdos e nos outros casos ) se encontra afectada dificultando assim a construção e o aperfeiçoamento de um sistema que possa abarcar um mais vasto e mais profundo campo de linguagem.

Na verdade, é teoria aceite, que o processo de aquisição da língua por parte dos deficientes auditivos e dos surdos é lento em consequência das limitações do seu sistema sensorial. Por este facto advêm entraves à sua experiência cognitiva e linguística, bem como certas restrições à sua educação e contactos sociais.

Por outro lado, factores histórico / culturais tornaram menos " piedosa " a aceitação da surdez pela comunidade falante do que aquilo que aconteceu em relação a outras deficiências sensoriais. A história, começando na mitologia, apenas faz uma referência que se pode considerar de vantajosa, à aquisição da surdez : trata-se do episódio da Ulisseia em que os marinheiros de Ulisses são aconselhados a tapar os seus ouvidos com cera para não ouvirem o canto das sereias.

Já os cegos, por exemplo, outros deficientes igualmente sensoriais, foram objecto de alguma quase beatificação: era-lhes atribuído - pelo menos a alguns - o dom da adivinhação, da profecia e da sabedoria e todos nos lembramos da forma piedosa como o cego Édipo - então já sem referência aos poderes de inteligência que tornaram famosa a sua decifração do enigma da esfinge - é tratado tanto originalmente por Eurípedes como pelos restantes cronistas / romancistas através das diversas versões do seu drama feitas ao longo dos tempos.

O poder da palavra e da oralidade parece-nos aqui tão determinante como ainda o é considerada hoje para o escalonamento da aceitação da deficiência. Quem não se expressa verbalmente, por incapacidade ou mesmo por vontade, sai diminuído no confronto com os detentores / utilizadores da oralidade.

Não falar, de certa forma, é como que esconder o pensamento e segundo uma lógica milenar só se esconde aquilo que pode representar algo de mau. Veremos durante o decorrer deste trabalho que o falar é considerado a regra - e mesmo o ruído - e que o silêncio é a excepção.

Também não é por acaso que todo um conjunto de disciplinas, desde os tempos mais remotos, ensinaram a falar bem, a discursar, a convencer pela força da palavra. Em períodos específicos da história a palavra e o dom da palavra são apontados como podendo fazer quase milagres.

O Padre António Vieira, ilustre representante da oratória barroca, combatia os ataques dos Holandeses contra o Brasil do alto do seu púlpito, a própria disciplina de Retórica que fazia parte dos estudos primeiros ( o Trivium ) na Idade Média, os discursos políticos, as promessas e a sua força de convencimento são quanto a mim elementos desde já suficientes para, elevando o valor da palavra, se puder avaliar do pouco valor que é dado aqueles que não têm o simples dom de articular palavras.

Não faz parte deste trabalho - preferentemente debruçado sobre a especificidade da linguagem gestual - avaliar ou referir mais detalhadamente os mecanismos institucionais e culturais postos à disposição dos surdos ( e de outros deficientes ) de forma a proporcionar a estes uma menor desigualdade no tratamento social.

Contudo sempre referiremos que a Constituição da República Portuguesa diz sucintamente que os cidadãos física ou mentalmente deficientes gozam plenamente dos direitos ( e estão sujeitos aos deveres ) consignados na Constituição e que o Estado se obriga a realizar uma política nacional de prevenção e de tratamento, reabilitação e integração dos deficientes e a desenvolver uma pedagogia que sensibilize a sociedade quanto aos deveres de respeito e solidariedade para com eles. Diz ainda a C.R.P. que o Estado se obriga a assumir o encargo da efectiva realização dos seus direitos.

Ora, não é preciso procurar muito para nos apercebermos que os esforços do Estado nestes aspectos ficam muito aquém das necessidades mínimas desejadas em todos os campos onde deveria intervir mais eficazmente e não intervém, e, no caso concreto que tratamos aqui, no que se refere aos deficientes auditivos e outros utilizadores da linguagem gestual.

 

 



22/02/2008
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