EXPLICATUDO

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CONSIDERAÇÕES SOBRE A SUBLIMAÇÃO

A sublimação, em termos correntes quer dizer elevação, atingir um estado superior em que o objecto sublimado permanece ou não na sua configuração própria, devidamente depurado do seu valor relativo anterior à sublimação, ficando subsumido, subalternizado, perante o indivíduo ou o grupo sublimado. Freud abordou o conceito e, sendo a sua psicanálise eminentemente virada para o problema sexual, a sublimação aparece como um processo preenchido por um conjunto de etapas, não forçosamente colocadas na mesma pista.

Segundo William Stern, em Psicologia Geral, o conceito de sublimação significa que a energia total disponível para a vida impulsiva, quando não pode descarregar-se num dado campo da acção impulsiva, procura outra saída, ou melhor, é orientada para outra saída.

Um pouco apressadamente, a nosso ver, este autor serve-se do exemplo de Goethe, que terá sublimado os seus amores pessoais na obra " Os sofrimentos de Werther ", não só canalizando a sua pulsão amorosa para o campo estético como ainda fazendo uma deliciosa mistura com uma referida pulsão estética, o que terá resultado num surplus da sublimação erótica através do seu enquadramento num surplus da pulsão estética (curiosamente, ou talvez não, referida como inata).

Ou seja, não terá só havido, em Goethe, sublimação de uma pulsão mas o seu direccionamento preciso para o campo estético terá enriquecido qualitativamente a " pulsão " estética, o que não deixe de nos parecer um convite à abstinência erótico / sexual pelo menos sempre que nos deparemos com a possibilidade de a sublimar em campos ditos superiores da psique e se sobre isso pudéssemos (ou desejássemos) estabelecer controlo e este tipo de controlo.

Contudo, quer em Stern quer na Psicologia em Geral, de base Freudiana ou não, a derivação dos impulsos para campos diferenciados não aparece como objecto de vontade. Aparece antes como um "acidente" favorável ou desfavorável (favorável em Goethe) que acaba por cozinhar, na sua complexidade derivativa e de direccionamento algo que ao ser mostrado vem a puder ser decomposto num sistema que se quer lógico e coerente.

O objecto sublimado é decomposto através de uma análise que é uma separação mental das suas partes, reagrupado em síntese, comparado nos seus elementos valorativos consigo mesmo e com a realidade envolvente, depurado através da abstracção (eliminação) dos seus elementos agora e / ou antes não significantes e generalizado de novo numa união conforme com o seu valor substancial tendo sempre como subjacente a perspectiva na qual se pretende enquadrar o objecto dado.

Assim, a análise da sublimação é a abordagem de um dado conceito sob um prisma constitutivo diferente do inicial, constituída essa abordagem por uma perspectiva histórica do seu desenvolvimento até à obtenção do dado sinal final (e final pelo menos na análise em causa).

Na verdade, e basta procedermos logicamente para obter uma determinação mais precisa do que se disse; se o objecto se mantém inalterado, porque é detectável como fundamento constituinte do resultante, ou seja, se não é diferente a sua perspectiva inicial da sua perspectiva final, não existe simplesmente sublimação do objecto dado mas sim recomposição deste num campo diferente.

Contudo esta afirmação será tudo menos pacífica se entendermos que, pelo menos, no conceito a sublimar, deve haver desde logo a potencialidade de sublimação. Logo, não se tratará para efeitos de sublimação, de um conceito qualquer…ele tem que ter já em si essa potencialidade o que nos levaria ao eterno problema de saber se a potencialidade deve ser entendida como constituinte do conceito ou se, por não estar manifesta, ainda que exista em si, não faz parte do conceito.

Ou seja, desde que sublimação seja entendida como um desvio, uma ultrapassagem ( segundo o léxico, "por cima") de um dado objecto da consciência ou não consciência este processo só pode ter lugar desde que o mesmo objecto contenha em potência a sua contornabilidade. Logo, não se pode sublimar a pulsão necessária, a fome, a sede, o defecar, o urinar, etc. e seria empobrecedor para a questão em análise considerar que o facto de se temporizar a sua manifestação isso implica em si a reversão do conceito em conceito sublimado.

Neste caso, se se proceder de acordo com o referido na sua decomposição acima a única alteração que se lhe poderá apontar será a da sua nova datação e revalidação lógica.

Ainda, para se direccionar um determinado impulso numa outra direcção que não aquela que lhe é logicamente consequente, será, a nosso ver, e não só, bastante redutor admitir-se ficarmo-nos pela simples ideia que, ao contornar o problema tudo se passa como se o problema ficasse resolvido ou anulado. Não é assim, de facto. O problema mantém-se, não vítima de um recalcamento directo, mas resultado de um recalcamento (por efeito de desvio) indirecto. Aliás é este o princípio defendido por Stern acima, embora conforme afirmámos, pensemos que este autor exagerou, pelo menos um pouco, na sua análise do problema Ghoeteiano.

Para que o problema, um dado problema seja sublimado é necessário, pois, que se pressuponha, como condição sine qua non, a sua flexibilidade constitutiva de um lado e / ou o seu carácter não absolutamente necessário de outro. Não se podem sublimar as nossas necessidades alimentares, como já vimos, mas já se podem sublimar as nossas necessidades sexuais e, das duas uma, ou a sexualidade detém em si uma flexibilidade constitutiva e / ou então não é absolutamente necessária.

De notar contudo que a alteração de perspectiva (e consequente alteração significativa do objecto) se pode verificar tendo por base alterações substanciais infligidas ao objecto sublimado quer a alterações subjectivadas na crença do agente sublimador.

Ou seja, do processo de formação / conformação do conceito / objecto a crença do agente sublimador do objecto age culturalmente no sentido da sua transformação não em si, substancialmente, mas para si, formalmente, constituindo nova forma que se reflecte na sua concepção do substancial do objecto.

Será este exemplificadoramente o caso das tribos primitivas aborígenes e dos costumes igualmente primitivos mas reflectindo-se em sociedades mais recentes – como é o caso em alguns povos da Indochina – de pintar os dentes com cores diferentes do branco numa atitude que é entendida como pretendendo diferenciar o homem do animal. Não nos cansaremos nunca de louvar a capacidade imagino / interpretativa de muitos antropólogos culturais que conseguem fazer de meras efabulações sem base substancial verdades científicas duradouras.

O objecto a sublimar mantém-se inalterado (os animais não deixam de ter os dentes brancos e o ser humano não deixa , substancialmente, de os ter igualmente brancos) passando as pessoas a tê-los agora pintados de cor diferente e, logo, afastando-se assim do conceito de animal. A intervenção é feita de fora para dentro do objecto e reflecte-se no conceito do próprio objecto a sublimar.

Sobre este plano bastante mais se poderia dizer, se entendêssemos que pode existir especulação apriorística na construção do novo conceito, e que, de certa forma, se dá ao objecto da futura sublimação uma significação que ele não tem, substancialmente em si mesmo, senão à posteriori. Ou seja, trata-se de um "novo" conceito já antes devidamente digerido e assumido como sendo suficientemente eficaz para se constituir num outro conceito.

Na verdade, e resumindo e concluindo o raciocínio, o que interessa para o processo de sublimação não será, definitivamente senão em parte, aquilo que o objecto é, de facto, mas sim a interpretação que lhe pode ser dada e aceite, quer pelo agente sublimador, quer, quando for o caso, pela colectividade na qual ele pretende fazer reflectir os resultados dessa sublimação. Ou seja, a sua manifestação, a sua exteriorização, a sua reflexão no outro de mim, a sua parte fenoménica. O real manifestado.



18/06/2008
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