EXPLICATUDO

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PORQUE É QUE OS ANIMAIS NÃO TÊM LINGUAGEM ?

PORQUE É QUE OS ANIMAIS NÃO TÊM  LINGUAGEM ? 

            David Hume diz-nos que é porque o animal não pensa, ou seja, não raciocina, tal como já temos vindo a referir neste trabalho. Mas as palavras de David Hume levam-nos igualmente à aceitação da ideia de que, algumas atitudes ou palavras do homem não são também linguagem. Senão vejamos:

            " É impossível que a inferência do animal possa basear-se em algum processo de argumentação ou raciocínio, pelo qual ele conclua que eventos semelhantes devem seguir-se a objectos semelhantes e que o curso da natureza será sempre regular nas suas operações. "

            Por conseguinte, os animais não são guiados pelo raciocínio nas suas inferências, nem o são as crianças - diz ainda Hume - nem o é também a generalidade dos homens nas suas acções e conclusões ordinárias. É unicamente o costume que impele os animais, de cada objecto que impressiona os seus sentidos, a inferir o seu usual concomitante, e leva a sua imaginação, desde o aparecimento de um, a conceber o outro, da maneira peculiar que denominamos de crença ( belief ).

            Em seguida Hume debruça-se sobre a diferença entre o homem e o animal, neste plano da inferência , para chegar à conclusão que o animal ( e alguns homens ) não têm a mesma capacidade de outros homens para acederem ao raciocínio e ao raciocínio complexo, no qual inclui a fala, a educação - das paixões, dos partidos, etc. - e a cultura através dos livros e da conversação. As constatações de Hume, ainda que discutíveis em termos de priorização e de valores continentes, não deixam, contudo, de nos oferecer uma imagem daquilo que é, de facto, a realidade.

            Se é um facto que nem todos os homens têm capacidade ( ou disponibilidade psicológica e sociológica ) para acederem aos diversos graus de raciocínio referidos por Hume, também nos parece certo que essa é uma questão circunstancial, ou seja, uma situação que está ligada à condição humana e não uma questão estrutural, ou seja, uma situação que esteja ligada à natureza / estrutura humana.

            Para Hume, também no campo dos instintos, a situação dos animais ( e de alguns homens mais do que outros ) a diferenciação se proporciona : " (...) Mas, embora os animais aprendam da observação muitas partes do seu conhecimento, há igualmente muitas partes dele que recebem da mão original da natureza ; estas excedem em muito o quinhão da capacidade que possuem nas ocasiões ordinárias e nas quais pouco ou nada melhoram, com a mais longa prática e experiência. A elas damos o nome de instintos e prestam-se muito à admiração como algo de extraordinário e inexplicável por todas as disquisições do humano entendimento.

            Mas, o nosso espanto talvez cesse ou diminua, ao pensarmos que o próprio raciocínio experimental, que possuímos em comum com os animais e de que depende a inteira conduta da vida, nada é senão uma espécie de instinto ou poder mecânico, que actua em nós e nos é desconhecido ; e, nas suas operações principais, não é dirigido por quaisquer relações ou comparações de ideias, como o são os objectos peculiares das nossas faculdades intelectuais. Embora o instinto seja diferente, é, apesar de tudo, ainda um instinto, que ensina um homem a evitar o fogo, tanto como aquele que ensina a uma ave, com tal exactidão, a arte de incubação e a inteira economia e ordem do cuidado dos filhotes".

            Interessaria aqui intercalar uma observação minha: É necessário ter em consideração que David Hume é um dos mais importantes representantes do empirismo ( inglês - neste caso ) e que a sua tese se orienta sobretudo no sentido de demonstrar que a experiência proporciona conhecimento ( e todo o conhecimento ), pelo menos o basilar, que, depois de inserido na razão ( filtrado, podíamos afirmar ) acaba por emancipar o homem do reino dos sentidos ( instintos, etc. ).

            A superação, ou sublimação em linguagem psicológica, através da razão, das instituições primárias ( instintos e sensações ) é um dos objectivos do homem, segundo Hume, que conjuntamente com Locke se colocam na posição antagónica à dos humanistas franceses ( Rosseau, etc. ) partindo do princípio que o homem é fundamentalmente mau ( porque começa pelas instituições primárias que são os instintos e as sensações ) e que é a vivência em sociedade que o melhora, ou que o faz evoluir e alterar / substituir os seus fundamentos através da aquisição de um quantitativo de razão sublimante.

            Os humanistas franceses foram os incentivadores do mito do bom selvagem, ou seja, afirmaram que, inversamente, o homem é fundamentalmente bom, que nasce igual e permanece igual. Aliás é este o conteúdo primeiro da Declaração Universal dos Direitos do Homem nesta concepção inspirada " todos os homens nascem e permanecem iguais ". Assim, é a sociedade que os torna menos bons, ou maus, ou seja, que os faz regredir, quando eles advém menos bons ou maus.

            A relação destas duas concepções com o tema que estamos desenvolvendo, para além de esclarecer alguns pontos que devem ser de conhecimento prévio para uma boa análise de Hume, esclarece-nos quanto a um ponto: enquanto que os humanistas defendiam a potencialidade de todos os homens desde o seu nascimento ( e, logo, a potencialidade para aceder à linguagem ), Hume e os empiristas inclinavam-se para a ideia de um processo evolutivo que fazia tábua rasa do adquirido originalmente, ou que, pelo menos, pregava a necessidade dessa aquisição original ser transformada racionalmente.

            O que temos defendido até aqui não invalida a aceitação de Rosseau e dos humanistas franceses ( pensamos que todo o homem tem potencialidades para atingir, neste caso, a capacidade de linguagem ) mas também não deixa de aceitar os aspectos defendidos por Hume. Parece-nos um facto que, embora a potencialidade exista em abstracto - perspectiva humanista - que essa mesma potencialidade deve ser objecto de educação / intervenção social ( perspectiva empirista )

            No que se refere expressamente à linguagem, através destas citações de Hume ficamos sem dúvida nenhuma de que tanto o instinto como o costume ( derivado da sensibilidade experimental ) não são, por um lado, elementos fornecedores ou componentes do raciocínio enquanto tal. E esta exclusão de parte é importante.

            Daí que os animais não tenham aquilo que se considera uma linguagem, tal como algumas atitudes do homem não constituem linguagem. Porque são reguladas por um poder mecânico, ou seja, um poder não reflectido ou premeditado conforme já dissemos atrás. Assim: a linguagem gestual , como forma de linguagem que é, não deve ser confundida com a "linguagem" espontânea dos gestos resultantes da experiência ordinário e dos instintos.

            Por outro lado, e servindo-me ainda de Hume ( como poderia ter utilizado outros filósofos também ) ao estabelecer que a linguagem gestual é aquela parte da gestualidade que é racionalizada, estabeleço simultaneamente que o impedimento de "A" ou "B" para utilizar a oralidade ou a linguagem mais utilizada, não tem lugar como resultado de uma falha de capacidade raciocínio. As limitações da linguagem gestual - bem menos perfeita que a linguagem escrita ou falada - têm a ver com factores de ordem cultural e de ordem física, conforme veremos mais detalhadamente à frente.



14/12/2007
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